
O problema da indução em Popper
INTRODUÇÃO
O filósofo austríaco Karl Raimund Popper (1902 - ) considera que os problemas fundamentais da Epistemologia são os da indução e da demarcação.
Popper denomina problema da demarcação o problema de estabelecer um critério que nos habilite a distinguir entre as ciências empíricas ou fatuais, de um lado, e a Matemática e a Lógica (ciências formais), bem como os sistemas metafísicos, de outro.
Restringir-nos-emos aqui ao problema da indução denominado por Kant de "problema de Hume". Este problema consiste em questionar sobre a validade ou verdade de enunciados universais (hipóteses, leis, teorias) obtidos a partir de enunciados particulares (constatações de fatos ou fenômenos).
O ponto de vista popperiano é o que a Lógica Indutiva aplicada à ciência coloca obstáculos intransponíveis. Negativamente, pode-se dizer que Popper nunca supõe que possamos sustentar a verdade de teorias a partir da verdade de enunciados singulares e também nunca supões a conclusões verificadas seja possível ter por verdadeiras ou mesmo por meramente prováveis quaisquer teorias.
1 - O PROBLEMA DA INDUÇÃO
Conforme uma concepção tradicional da ciência, as ciências
empíricas ou fatuais caracterizam-se por utilizarem os chamados métodos indutivos. Dessa
maneira, a lógica da pesquisa científica ou lógica do conhecimento se identificaria com
a lógica indutiva, ou seja, com a análise lógica desses métodos indutivos.
Comumente se diz indutiva a inferência que conduz de enunciados singulares, ás vezes também denominamos de enunciados particulares, tais como descrições dos resultados de observações ou experimentos, para enunciados dos resultados universais, tais como hipóteses ou teorias.
Não é de modo algum óbvio, de um ponto de vista lógico, que se justifique a inerência de enunciados universais, que extrapolam os dados, a partir de enunciados singulares, independentemente do número de casos observados. Descarte, qualquer conclusão obtida desse modo pode mostrar-se falsa: não importa quantos cisnes brancos possamos observar, isso não justifica a conclusão de que todos os cisnes são brancos, admite Popper, pois há sempre a possibilidade lógica de surgir um cisne não branco.
O problema de indução consiste em "... saber se as inferências indutivas se justificam e em que condições", ou dito de outro modo, : ... a indagação acerca da validade ou verdade de enunciados universais que encontrem base na experiência, tais como as hipóteses e os sistemas teóricos das ciências empíricas". Para os defensores da lógica indutiva, a verdade dos enunciados universais é "conhecida através da experiência", baseando-se tal ponto de vista no princípio empirista de redução de todo o conteúdo do conhecimento a determinações observáveis. Com efeito, indagar pela existência de leis naturais verdadeiras eqüivale a indagar pela justificativa lógica das inferências indutivas.
Caso se pretenda estabelecer um meio de justificar as inferências indutivas, deve-se, inicialmente, procurar determinar um princípio de indução, isto é, "um enunciado capaz de auxiliar-nos a ordenar as inferências indutivas em forma logicamente aceitável". Tal princípio é fundamental para o método científico e eliminá-lo da ciência significaria privá-la do poder de decidir quanto à verdade ou falsidade de suas teorias, admitem indutivistas como Reichenbach.
Considera Popper que, por um lado, o princípio de indução não pode ser uma verdade lógica pura, tal como uma tautologia ou um enunciado analítico, pois se houvesse um princípio puramente lógico de indução, simplesmente não haveria problema de indução, uma vez, que neste caso todas as inferências indutivas teriam de ser tomadas como transformações lógicas ou tautológicas, exatamente como as inferências no campo da Lógica Dedutiva.
Portanto, o princípio de indução há de ser um enunciado sintético, isto é, num enunciado cuja negação não se mostre contraditória, mas logicamente possível. Desse modo, surge a questão de saber por que tal princípio deveria ser aceito e como poder-se-ia justificar-lhe a aceitação em termos racionais. Por outro lado, o princípio de indução tem de constituir-se em enunciado universal, senão vejamos. Se pretender considerar sua verdade como derivada da experiência, surgirão novamente os mesmos problemas que levaram a sua formulação, pois para justificá-lo, teremos de recorrer a inferências indutivas e para justificar estas, teremos de admitir um princípio indutivo de ordem superior, e assim sucessivamente. Logo, a tentativa de fundamentar o princípio de indução na experiência fracassa, pois conduz a uma regressão infinita.
Popper observa que Hume já havia apontado incoerências em relação ai princípio de indução. Argumenta Hume que "mesmo após observar freqüentemente a constante conjunção de objetos, não temos razão para tirar qualquer inferência concernente a qualquer outro objeto que não aqueles de que tivemos experiência". Se alguém sugerisse que a nossa experiência nos habilita, a partir de objetos observados. Hume diria: "Renovo minha indagação: como, a partir dessa de experiência, formular qualquer conclusão que ultrapasse as instancia passadas, de que tivemos experiência?" em outras palavras, Hume assinala que nos enlearemos numa regressão infinita se apelarmos para a experiência com o propósito de justificar qualquer conclusão concernente a instâncias não observadas mesmo conclusões meramente prováveis, acrescenta ele, em seu Abstract. Ali podemos ler:
"É evidente que Adão, com toda a sua ciência, jamais teria como demonstrar que o curso da natureza haveria de continuar uniformemente o mesmo... E avançarei para afirmar que, igualmente, ele não poderia demonstrar através de argumentos prováveis, que o futuro haveria de conformar-se com os termos do passado. Todos os argumentos prováveis originam-se com base na suposição de que há conformidade entre futuro e passado e, portanto, jamais podem demonstrá-la."
com efeito, "Ter de esperar que as instâncias de que não temos experiência se assemelhem àquelas de que tivemos experiência" não é justificável pela experiência; para ser logicamente válida teria de consistir em uma taulogia, válida para todo universo logicamente possível, mas isto não ocorre a tentativa kantianade expor uma justificativa a prior para os enunciados sintéticos, admitindo que o princípio de indução, que ele denominou "princípio de acusação universal" é "válido a prior", não teve êxito, segundo Popper.
O "princípio de acusação universal" ou "princípio de causalidade" consiste na afirmação de que todo e qualquer evento pode ser casualmente explicado, de que pode ser dedutivamente previsto. Segundo a maneira como se interpreta a palavra "pode" na asserção acima, esta será taulógica (analítica) ou uma asserção a respeito da realidade (sintética). Se "pode" quiser dizer que é sempre logicamente possível elaborar uma explicação causal, a asserção será taulógica, pois para toda e qualquer predição (abrangendo enunciados a respeito do passado ou retrodições) poder-se-á sempre indicar enunciados universais (hipóteses com caráter de leis naturais) e condições iniciais (enunciados singulares, que se aplicam ao evento específico em tela) de que a predição é dedutível. Se, no entanto, "pode" quiser dizer que o mundo é governado por leis rígidas, que ele é constituído de tal; forma que todo evento específico é exemplo de uma regularidade universal ou lei, a asserção será sintética. Em tal caso, Popper considera que ela será não falseáveis. Com efeito, ele não aceita nem rejeita o "princípio de causalidade", apenas o exclui da esferas da Ciência, entendendo-o como um princípio metafísico, devendo a expressão metafísica ser aqui entendida num sentido amplo, significando não só uma doutrina dos objetos supra-sensíveis, mas também toda filosofia que pretenda, aprioristicamente, fazer afirmações acerca da realidade ou estabelecer normas.
Propõe Popper, porém, uma regra metodológica tão semelhante ao "princípio de causalidade", que este pode ser considerado como sua versão metafísica. Tal regra assevera que não se deve abandonar a busca de leis universais e de um coerente sistema teórico, nem abandonar, jamais, as tentativas de explicar casualmente qualquer tipo de evento que se possa descrever. Essa regra tem a função de orientar o trabalho do investigador, do pesquisador. Assim, Física por exemplo, as fórmulas de Heisenberg bem como enunciados semelhantes, só podem ser testados por meio de suas conseqüências estatísticas não conduzem necessariamente a conclusões indeterministas, portanto, se atribuímos caráter empírico às condições indeterministas, então é preciso tentar submetê-las , a teste, ou seja, tentar falseá-las. Mas isto eqüivale a dizer que devemos procurar leis e formular previsões. Logo, não podem abandonar essa busca de regularidades sem, concomitantemente negar o pressuposto de que as hipóteses possuem caráter empírico. Assim , seria autocontraditório pensar a existência de qualquer hipótese empírica que nos levasse a abandonar a busca de leis. O próprio Heisenberg intenta apresentar um explicação causal para explicar porque são impossíveis as explicações causais. Ele argumenta que a causalidade falha devido a nossa interferência com o objeto observado, isto é, devido a certa interação causal.
Para Popper, a ciência não é um sistema de enunciados certos ou bem estabelecidos, nem é um sistema que avance continuamente em direção a um estado de finalidade, ou seja, não episteme ou conhecimento acabado. Embora a ciência jamais possa proclamar haver atingido a verdade ou um seu substituto, como a probabilidade, as razões mais fortes de investigação científica continuam a ser o esforço por conhecer e a busca da verdade.
Popper propõe, em substituição ao método indutivo, o todo hipotético-dedutivo, que se procura uma solução, através da conjectura ou hipóteses e eliminação de erros.
A ciência não progride devido ao acúmulo cada vez mais de experiências percentuais ou ao uso cada vez melhor de nossos sentidos. Ela avança com conjecturas imaginativas, ousadas e arriscadas. Estas são controladas pela crítica intersubjetiva por tentativas de refutação ou falseamento, que incluem testes sistemático severos. "Uma vez elaborado, nenhuma dessas antecipações é dogmaticamente defendidas. Nosso método de pesquisa não se orientas no sentido de defendê-las para provar que tínhamos razão. Pelo contrário, procuramos contestar essas antecipações. Recorrendo a todos os meios lógicos, matemáticos, técnicos de que dispomos, procuramos mostrar que nossas antecipações são falsas a fim de colocar, no lugar delas, novas antecipações injustificadas e justificáveis, novos preconceitos temerários e prematuros, como Bacon pejorativamente as denominou".
Para Popper, os métodos de teste são invariavelmente apoiados em inferências dedutivas e não indutivas. A conjectura é uma solução provisória proposta em forma de proposição passível de teste, direto ou indireto, nas suas conseqüências, sempre de forma dedutiva. Tal conjectura é elaborada normalmente na forma condicional "se...então..." Em sendo verdadeiro o antecedente, introduzido por "se", também o será o consequente, introduzido por "então, isto porque o antecedente consiste numa lei geral e conseqüente é deduzido dela. Para participarmos do jogo científico é necessário expormos nossos ideias à eventualidade da refutação ou falseamento. Falsear consiste em tornar falsas as conseqüências deduzidas ou derivadas da hipótese, através da regra lógica denominada modus tollens, isto é, se p, então q; não q, logo não p. Desse modo, se q, é dedutível de p, mas q é falso, então p é falso.
CONCLUSÃO
A contribuição de Popper foi decisiva para a solução de um problema epistemológico, fundamental o problema da indução e de seu valor na ciência. Ele teve que lutar energicamente contra os dois dogmas fundamentais das teorias do conhecimento e das epistemologias empiristas tradicionais.
O primeiro deles está contido na idéia de que a ciência deve apoiar-se numa fase observacional. Segundo dogma consiste na idéia segundo a qual a ciência deve utilizar um método indutivo, em oposição ao método especulativo, considerado como típico das pseudociências e da metafísica. Popper argumenta que as modernas teorias da física, em particular a teoria da relatividade de Einstein são altamente especulativas e abstratas e muito afastadas do que poder-se-ia chamar sua base observacional.
Todas as tentativas de mostrar que tais teorias partem da observação e do experimento, isto é, são elaboradas indutivamente, não são conscientes. O mesmo ocorre com a teoria da gravitação universal de Newton e do sistema heliocêntrico de Copérnico. Assim, pode-se dizer que, via de regra, as melhores teorias físicas sempre se assemelharam ao que Bacon rejeitara como antecipação mental.
Não se justifica a indução na perspectiva popperiana uma vez que conduz à regressão ao infinito, na procura de fatos que a confirmem, ou então ao apriorismo, que consiste em admiti-la como algo já dado como simplesmente aceito, sem necessidade de ser demonstrada, justificada. Nem na lógica nem na metodologia existe a indução. Esta é de cunho psicológico. O salto indutivo, a extrapolação de "alguns" para "todos", de enunciados particulares para enunciados universais parece indispensável, mas é impossível, pois requereria que uma quantidade de finitos particulares atingisse o infinito, universal o que é impossível, por maior que seja a quantidade de fatos observados, considera Popper.
Popper propugna, ao invés da indução, o método
hipotético-dedutivo, um método de tentativas e eliminação de erros. Parte-se de um
problema (P1); dá-se-lhe uma solução provisória uma teoria-tentativa (TT), passando-se
depois a criticar a solução, com vistas à eliminação do erro (EE) e, tal como no caso
da tríade dialética constituídas pela tese, antítese e síntese, esse processo
auto-renovar-se-ia, dando origem, a novas problemas (P2). Uma teoria tentativa, uma
conjectura, nunca pode ser considerada definitivamente confirmada. Confirmar, verificar
uma hipóteses é utópico, pois teríamos que acumular todos os casos positivos passados,
presentes e futuros, o que é impossível. No máximo, podemos considerar uma conjectura
ou teoria, que sobrevive como mais apta na luta pela vida, como corroborada. Isto
significa que fracassaram todas as nossas tentativas de refutá-la ou falseá-la através
da experiência. Ela superou todos os testes, em relação ao estado presente da
discussão, mas não está definitivamente confirmada, desde que poderá surgir um fato
que invalide, como tem ocorrido com muitas leis e teorias na história da ciência.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
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